Misturaram anestésicos nas nossas águas. Fomos envenenados. Essas afirmações podem soar como mais uma dessas teorias conspiratórias, mas pra mim, ainda é a única explicação para ficarmos tão imóveis diante da pouca vergonha que tomou conta de nosso poder legislativo.
A denúncia de um castelo, adormecida sabe-se lá porque desde 1992, volta a tona tirando do cargo de corregedor da Câmara dos Deputados, o mineiro Edmar Moreira, e estoura o barril de lama. Desde Collor, nunca mais nos revoltamos com escândalos de corrupção em nosso país, e o pior, eles foram se escancarando cada vez mais.
E nossa juventude se alienando... É melhor rir de Luciana Gimenez e seus convidados... É melhor eliminar um brother no paredão... É melhor beber... cair... e levantar...
Política é coisa chata! Votar pra que? Vão roubar de qualquer jeito! E a culpa disso é nosso Brasil permissivo. A lei permite qualquer um a se candidatar (não que isso seja errado, mas deveríamos adotar algum critério) e o horário eleitoral vira programa humorístico, melhor do que “A praça é nossa” e “Zorra Total”.
Mas a culpa não pode ser destes jovens. Todos os dias nossos parlamentares são pegos roubando. Mas a culpa não pode ser dos nossos parlamentares, porque todos eles foram eleitos, não há sequer um deles que está no cargo de outra forma, senão à consagrada pela democracia. A culpa é das urnas eletrônicas. Mesmo com toda tecnologia disponível no mundo, ainda não conseguimos criar um programa capaz de bloquear a urna para candidatos picaretas. Então ficamos a mercê das mídias. E aí a coisa fica feia...
Segundo o site Transparência Brasil, as duas regiões com maior número de eleitores, Sudeste e Nordeste, concentram o maior número de deputados proprietários de concessões públicas de radiodifusão. São 30 no Nordeste e 15 no Sudeste, os que utilizam mais do que o horário eleitoral gratuito para estar presente na TV do povo. Não que eles apareçam todos os dias... mas para quem tem boa memória, quando o Globo Repórter foi mostrar denúncias graves de corrupção contra uma tradicional família de políticos nordestina (bem próximo a Minas Gerais) as transmissões de TV da emissora foram cortadas pela afiliada da região, curiosamente essa afiliada pertencia à família envolvida no escândalo.
Com o perdão da palavra... esse país ta uma verdadeira putaria. Eu até poderia substituir o termo chulo por algo mais contido como “orgia”, mas a real é que nossa política é uma putaria chula mesmo.
Os relatórios do transparência Brasil apontam deputados que excederam o limite de faltas em sessões do ano, em dias que não estavam de licença e que deveriam ter o mandato extinto sumariamente. Pergunte aos nossos congressistas, se esta norma é cumprida?
E não para por aí... A revista Época, reproduzindo informações do Transparência Brasil, mostra na reportagem desta semana, que o Congresso Brasileiro gasta R$ 11.545,04 por minuto. Cada deputado custa 6,6 milhões de reais por ano e cada senador consome no mesmo período 33,1 milhões de reais. Para se ter a idéia do choque, a Câmara dos Lordes (o congresso britânico) gasta apenas 600 mil reais por ano com a manutenção de seus parlamentares.
Mas temos que entender nossos parlamentares. O custo de vida em nosso país é muito elevado. A gasolina é cara, roupas, móveis, alimentação, os raros momentos de lazer e descanso, a escola das crianças, água, luz, telefone e por fim os impostos. Não há parlamentar, chefe de família que consiga sobreviver à tantas contas. É preciso fazer uns “bicos” e ganhar umas “comissões” para poder complementar a renda.
Enquanto a população se esbalda no décimo terceiro e reza para que as parcelas do seguro-desemprego sejam pagas por mais tempo, cada senador brasileiro custa 6699 salários mínimos por ano. O que daria pouco mais de 515 anos de trabalho para um assalariado. Isso tudo para ter a honra de ter um senador representando seu estado em Brasília. Já que um senador permanece no cargo por 8 anos, um brasileiro que quisesse bancar sozinho as despesas do mandato de um senador teria que trabalhar por apenas 4122 anos. Isso se ele abrisse mão de seu 13º, é claro.
Vou parar por aqui... antes que o efeito da anestesia que colocaram em nossas águas passe e essas informações nos causem muita dor. Mas para os que gostam de sofrer fica a dica de visita: www.transparenciabrasil.org.br e www.excelencias.org.br.
Um comentário:
Efeito anestésico mortal.
Esta é a consequência do ridículo que uma população se permite viver. Iludem os pequenos com uma história de "futuro da Nação", enquanto eles mesmos, já vividos (teoricamente), perpetuam cinicamente a descrença, os olhos míopes, a burrice elevada...
Nunca pensei, em minha vida toda, que poderia chegar um certo momento em que precisasse concordar com tal anestesia... de uns tempos pra cá, é só o que tenho feito. É triste saber que que estou me tornando uma ridícula, que pretende colocar no mundo pelo menos um filho... ainda não sei pra quê...
Eu tenho vergonha, Luiz. Por isso mesmo já escrevo tão pouco, publico e comento muito raramente alguma opinião sobre essa corja porca, imunda, nojenta, venenosa e tosca; socialmente conhecida como políticos. Se escolhemos, erramos. Se não damos a mínima e votamos em qualquer um, erramos também. Desse bando todo, salvam-se muito poucos... é uma pena.
Eu tenho alguns ídolos, um deles se chama Paulo Pavesi. É uma pena que, para provar tudo o que o próprio governo sempre soube, ele precisou pedir asilo político à Itália. E conseguiu. Lá ele provou que o governo brasileiro arrancou os órgãos de seu filho sem o seu consentimento. O menino, com morte cerebral, ainda não havia morrido e mesmo assim lhe arrancaram, para você ter idéia, as córneas. Pavesi é meu herói, porque quando penso em sua experiência e em sua força/ inteligência, reacende em mim a lembrança de que eu também preciso ter a força e conservar minha inteligência para lutar contra um bando de porcos enfeitados por colares de pérolas.
Nós somos passivos sim. E o efeito maior dessa passividade ainda não chegou. Eu imagino que seremos obrigados, por via dos fatos, a fazer aquilo que sempre adiamos na vida: tirar a bunda do sofá e fazer algo que preste.
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