A ABCZ (Associação Brasileira dos Criadores de Gado Zebu) publicou hoje, 30 de julho de 2008, um manifesto sobre as invasões de terra promovidas pelo MST (movimento dos trabalhadores rurais sem-terra). Leia e comente o texto... Merece consideração, mas também uma analise profunda do tema...
Invasão é Crime
A Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) manifesta o seu repúdio à “rotina” de invasões de propriedades rurais no País, em aberto desrespeito às leis e em absoluto descompasso com o papel que os produtores rurais desempenham no desenvolvimento da economia nacional, no abastecimento de alimentos para o mercado interno e nas exportações para todo o mundo.
A mais recente em destaque nos veículos de comunicação é a invasão da Fazenda Maria Bonita, da Agropecuária Santa Bárbara Xinguara, no município de Eldorado do Carajás (PA), no último dia 25 de julho, por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Uma invasão emblemática que evidencia os métodos de líderes que se aproveitam de situações que dão margem à adoção de aparentes justificações para seus atos, “palatáveis”, talvez, para o cidadão que vive nos centros urbanos, a centenas de quilômetros da realidade do meio rural, sob o peso de inúmeras obrigações, dificuldades e informações do cotidiano.
Observada de perto, porém, é mais uma agressão à ordem pública injustificável sob todos os aspectos: o legal, o social, o econômico e o político.
No aspecto legal é mais uma afronta ao Estado de Direito que desconsidera princípios consagrados na Constituição brasileira e nas Cartas Magnas de quase todos os países. A aceitação do argumento de que o imóvel invadido é alvo de questionamento quanto à regularidade da transação entre o antigo e a atual proprietária implica em admitir que indivíduos ou movimentos de qualquer natureza se invistam do exercício das atribuições do Poder Judiciário para julgar sobre pendências do seu interesse, uma vez que a situação jurídica da Fazenda Maria Bonita ainda se encontra sob exame e não foi objeto sequer de decisões em primeira instância judicial.
Sob os aspectos econômicos e sociais a invasão é outra afronta ao sistema produtivo brasileiro, aos interesses da sociedade paraense e à própria Reforma Agrária.
Os empreendimentos da Agropecuária Santa Bárbara Xinguara no Pará são reconhecidos pelo investimento em profissionais qualificados, tecnologia de ponta e alta qualidade genética animal, com resultados expressivos em volume de produção e produtividade.
São investimentos que estão contribuindo para a transformação da pecuária do Pará em uma atividade produtiva avançada e competitiva, capaz de gerar novos e melhores empregos e mais receitas públicas.
É também injustificável a ocorrência de qualquer nova invasão de terras no atual estágio da Reforma Agrária brasileira e diante dos níveis dos investimentos que estão sendo feitos para o fortalecimento da Agricultura Familiar e dos pequenos produtores. É lamentável que líderes de um movimento que empunha bandeiras sociais não reconheçam os passos já dados nesse processo e o melhor caminho a seguir e insistam em comandar ações desnecessárias para os objetivos da Reforma Agrária e meramente provocativas, destrutivas ou intimidatórias. Lembre-se aqui a recente invasão à Vale do Rio Doce.
. Vê-se, então, em tais invasões apenas o discurso anacrônico, autoritário e unilateral de líderes indispostos para o diálogo político, a convivência democrática e o respeito às leis, reproduzido em ações que provocam instabilidade, insegurança e conflitos nos campos brasileiros. Campos que têm a missão de produzir cada vez mais e com mais produtividade e qualidade, para contribuir com a superação da “crise de alimentos” que preocupa governantes, especialistas e povos de todo o planeta.
Cumpre às autoridades competentes e à própria sociedade não contemporizar com a agressão ao Estado de Direito e não relativizar com o fato de que uma invasão de uma propriedade rural ou urbana é crime. E nenhum tipo de crime deveria ser encarado com naturalidade.
Associação Brasileira dos Criadores de Zebu - ABCZ
"Que a morte de tudo o que Eu acredito não me tape os ouvidos nem a boca"
quarta-feira, 30 de julho de 2008
quarta-feira, 30 de abril de 2008
E porque ficaríamos de fora?
domingo, 6 de abril de 2008
ÉTICA, COTAS E INTEGRAÇÃO RACIAL.
Isonomia, o caput do artigo 5º da Constituição da República Federativa do Brasil consagra-o como direito fundamental do estado brasileiro: “todos são iguais perante a lei”. Estabelecido por Clístenes, pai da democracia ateniense, mais de quinhentos anos antes do nascimento de Cristo, a isonomia é a essência da existência da democracia. Desta forma, o poder legislativo e o poder executivo, não podem editar atos, leis, medidas provisórias ou outros instrumentos legislativos ou discricionários que venham estabelecer diferenciação entre os que se submeterão à lei.
Quando o estado brasileiro instituiu o sistema de cotas para negros, não cometeu aí um erro jurídico, visto que a doutrina judiciária e a própria jurisprudência relatam que o legislador, ao estabelecer a isonomia, previu tratamento igual aos iguais e desigual aos desiguais buscando ao final o equilíbrio entre os cidadãos, mas talvez tenha cometido um erro ético ao tentar compensar um problema secular, advindo da própria incapacidade do estado em administrar a questão racial, desprivilegiando uma “raça” em detrimento da outra.
Ao simplesmente decretar que a partir de então os negros teriam, obrigatoriamente, um percentual de “espaço” garantido em universidades, retirando do sistema universal as vagas que anteriormente existiam, o estado comete um erro semelhante aos cometidos no passado. Foram décadas utilizando mão de obra escrava e quando resolveram que isso não era mais viável simplesmente atiraram os negros à rua, por decreto, dando-lhes a liberdade e ao mesmo tempo tirando-lhe a oportunidade de progredir.
Na contra mão das cotas, está o Prouni. O programa que dá aos estudantes de baixa renda subsídios para que cursem o ensino superior em universidades particulares e complementam suas rendas com auxílios financeiros, mostra o caminho mais ético para a resolução de problemas sociais. Ao invés de decretar a inserção de uma determinada classe da sociedade, o ProUni possibilita à essa classe que ascenda por seus próprios méritos.
É, sem dúvida alguma, essencial que o Estado promova programas e projetos de integração que levem de fato a igualdade entre os cidadãos. Mas isso deve ocorrer com negros, pardos, brancos, mulatos, pobres, ricos, gays, crianças, idosos. Há que se promover a integração desses grupos com ferramentas que realmente os integrem e que não apenas aportem esses grupos para dentro de outros.
Quando o estado brasileiro instituiu o sistema de cotas para negros, não cometeu aí um erro jurídico, visto que a doutrina judiciária e a própria jurisprudência relatam que o legislador, ao estabelecer a isonomia, previu tratamento igual aos iguais e desigual aos desiguais buscando ao final o equilíbrio entre os cidadãos, mas talvez tenha cometido um erro ético ao tentar compensar um problema secular, advindo da própria incapacidade do estado em administrar a questão racial, desprivilegiando uma “raça” em detrimento da outra.
Ao simplesmente decretar que a partir de então os negros teriam, obrigatoriamente, um percentual de “espaço” garantido em universidades, retirando do sistema universal as vagas que anteriormente existiam, o estado comete um erro semelhante aos cometidos no passado. Foram décadas utilizando mão de obra escrava e quando resolveram que isso não era mais viável simplesmente atiraram os negros à rua, por decreto, dando-lhes a liberdade e ao mesmo tempo tirando-lhe a oportunidade de progredir.
Na contra mão das cotas, está o Prouni. O programa que dá aos estudantes de baixa renda subsídios para que cursem o ensino superior em universidades particulares e complementam suas rendas com auxílios financeiros, mostra o caminho mais ético para a resolução de problemas sociais. Ao invés de decretar a inserção de uma determinada classe da sociedade, o ProUni possibilita à essa classe que ascenda por seus próprios méritos.
É, sem dúvida alguma, essencial que o Estado promova programas e projetos de integração que levem de fato a igualdade entre os cidadãos. Mas isso deve ocorrer com negros, pardos, brancos, mulatos, pobres, ricos, gays, crianças, idosos. Há que se promover a integração desses grupos com ferramentas que realmente os integrem e que não apenas aportem esses grupos para dentro de outros.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
3 Anos sem João...
Passaram-se três anos desde a morte de João Paulo II, mas os reflexos de seu longo pontificado ainda estão latentes no coração dos jovens católicos de todo o mundo. “Eu vos procurei, vocês vieram a mim e eu vos abençôo”, com essa frase, uma das últimas inteligíveis ditas antes da morte, João Paulo II agradeceu a imensa multidão de jovens que lotou a praça de São Pedro.
Ainda no clima de sua agonia e na expectativa de sua sucessão, escrevi ao Jornal Revelação, um pouco de sua biografia e descrevi como seria o processo sucessório. Hoje, questionamos os rumos da sua canonização.
Ainda durante suas exéquias ouviam-se os gritos vindos em coro da multidão chorosa que o proclamava: “Santo Súbito”. O moroso e rigoroso processo de canonização (elevação de um humano a categoria de santo) foi abreviado um ano após sua morte por uma decisão do novo papa, numa espécie de reconhecimento da santidade de João Paulo II. Apesar de apoiar a mobilização pela canonização de Carol, acredito que isso será apenas uma formalização do que as pessoas em todo o mundo sentem.
Nós brasileiros temos as emoções latentes na pele, mas da mesma forma que elas vêm, se vão rapidamente. Por aqui é incomum ver quem ainda se sente da mesma forma que na época da morte do papa, mas na Europa e especialmente na Itália e na Polônia, os jovens católicos são gratos aos atos do “papa das virtudes”, lá, a pressão pela santificação de João Paulo II é grande.
Nunca a igreja havia visto tamanha dedicação e carisma, esforço e perseverança. Não renunciou, Não fraquejou e deu a ordem “não tenham medo”. E hoje, nessa triste lembrança, não me deixam de vir a mente dois textos que traduzem todas as visões lançadas sobre João Paulo II. Aproveito para compartilhá-las.
Eu não gostava do Papa João Paulo II
Escrevo enquanto vejo a morte do papa na TV. E me espanto com a imensa emoção mundial. Espanto-me também comigo mesmo: 'Como eu estou sozinho!' - pensei. Percebi que tinha de saber mais sobre mim, eu, sozinho, sem fé nenhuma, no meio deste oceano de pessoas rezando no Ocidente e Oriente. Meu pai, engenheiro e militar, me passou dois ensinamentos: ele era ateu e torcia pelo América Futebol Clube. Claro que segui seus passos. Fui América até os 12 anos, quando 'virei casaca' para o Flamengo (mas até hoje tenho saudade da camisa vermelha, garibaldina, do time de João Cabral e Lamartine Babo), e parei de acreditar em Deus. Sei que 'de mortuis nihil nisi bonum' ('não se fala mal de morto'), mas devo confessar que nunca gostei desse papa. Por quê? Não sei. É que sempre achei, nos meus traumas juvenis, que papa era uma coisa meio inútil, pois só dava opiniões genéricas sobre a insânia do mundo, condenando a 'maldade' e pedindo uma 'paz' impossível, no meio da sujeira política.
Quando João Paulo entrou, eu era jovem e implicava com tudo. Eu achava vigarice aquele negócio de fingir que ele falava todas as línguas. Que papo era esse do papa? Lendo frases escritas em partituras fonéticas... Quando ele começou a beijar o chão dos países visitados, impliquei mais ainda. Que demagogia! - reinando na corte do Vaticano e bancando o humilde...
Um dia, o papa foi alvejado no meio da Praça de São Pedro, por aquele maluco islâmico, prenúncio dos tempos atuais. Eu tenho a teoria de que aquele tiro, aquela bala terrorista despertou-o para a realidade do mundo. E o papa sentiu no corpo a desgraça política do tempo. Acho que a bala mudou o papa.
Mas, fiquei irritadíssimo quando ele, depois de curado, foi à prisão 'perdoar' o cara que quis matá-lo. Não gostei de sua 'infinita bondade' com um canalha boçal. Achei falso seu perdão que, na verdade, humilhava o terrorista babaca, como uma vingança doce. E fui por aí, observando esse papa sem muita atenção. É tão fácil desprezar alguém, ideologicamente...
Quando vi que ele era 'reacionário' em questões como camisinha, pílula e contra os arroubos da Igreja da Libertação, aí não pensei mais nele... Tive apenas uma admiração passageira por sua adesão ao Solidariedade do Walesa, mas, como bom 'materialista', desvalorizei o movimento polonês como 'idealista', com um Walesa meio 'pelego'. E o tempo passou. Depois da euforia inicial dos anos 90, vi que aquela esperança de entendimento político no mundo, capitaneado pelo Gorbachev, fracassaria. Entendi isso quando vi o papai Bush falando no Kremlin, humilhando o Gorba, considerando-se 'vitorioso', prenunciando as nuvens negras de hoje com seu filhinho no poder. Senti que o sonho de entendimento socialismo-capitalismo ia ser apenas o triunfo triste dos neoconservadores. O mundo foi piorando e o papa viajando, beijando pés, cantando com Roberto Carlos no Rio. Uma vez, ele declarou: 'A Igreja Católica não é uma democracia.' Fiquei horrorizado naquela época liberalizante e não liguei mais para o papa 'de direita'.
Depois, o papa ficou doente, há dez anos. E eu olhava cruelmente seus tremores, sua corcova crescente e, sem compaixão nenhuma, pensava que o pontífice não queria 'largar o osso' e ria, como um anti-Cristo. Até que, nos últimos dias, João Paulo II chegou à janela do Vaticano, tentou falar... e num esgar dolorido, trágico, foi fotografado em close, com a boca aberta, desesperado. Essa foto é um marco, um símbolo forte, quase como as torres caindo em NY. Parece um prenúncio do Juízo Final, um rosto do Apocalipse, a cara de nossa época. É aterrorizante ver o desespero do homem de Deus, do Infalível, do embaixador de Cristo. Naquele momento, Deus virou homem. E, subitamente, entendi alguma coisa maior que sempre me escapara: aquele rosto retorcido era o choro de uma criança, um rosto infantil em prantos! O papa tinha voltado ao seu nascimento e sua vida se fechava. Ali estava o menino pobre, ex-ator, exoperário, ali estavam as vítimas da guerra, os atacados pelo terror, ali estava sua imensa solidão igual à nossa.
Então, ele morreu. E ontem, vendo os milhões chorando pelo mundo, vendo a praça cheia, entendi de repente sua obra, sua imensa importância. Vendo a cobertura da Globo, montando sua vida inteira, seus milhões de quilômetros viajados, da África às favelas do Nordeste, entendi o papa.
Emocionado, senti minha intensíssima solidão de ateu. Eu estava fora daquelas multidões imensas, eu não tinha nem a velha ideologia esfacelada, nem uma religião para crer, eu era um filho abandonado do racionalismo francês, eu era um órfão de pai e mãe. Aí, quem tremeu fui eu, com olhos cheios d´água.
E vi que Karol Wojtyla, tachado superficialmente de 'conservador', tinha sido muito mais que isso. Ele tinha batido em dois cravos: satisfez a reacionaríssima Cúria Romana implacável e cortesã e, além disso, botou o pé no mundo, fazendo o que italiano nenhum faria: rezar missa para negões na África e no Nordeste, levando seu corpo vivo como símbolo de uma espiritualidade perdida. O conjunto de sua obra foi muito além de ser contra ou a favor da camisinha. Papa não é para ficar discutindo questões episódicas. É muito mais que isso. Visitou o Chile de Pinochet e o Iraque de Saddam e, ao contrário de ser uma 'adesão alienada', foi uma crítica muito mais alta, mostrando-se acima de sórdidas políticas seculares, levando consigo o Espírito, a idéia de Transcendência acima do mercantilismo e de ditaduras. E foi tão 'moderno' que usou a 'mídia' sim, muito bem, como Madonna ou Pelé. E nisso, criticou a Cúria por tabela, pois nenhum cardeal sairia do conforto dos palácios para beijar pé de mendigo na América Latina. João Paulo cumpriu seu destino de filósofo acima do mundo, que tanto precisa de grandeza e solidariedade.
Sou ateu, sozinho, condenado a não ter fé, mas vi que se há alguma coisa de que precisamos hoje é de uma nova ética, de um pensamento transcendental, de uma espiritualidade perdida. João Paulo na verdade deu um show de bola.
Arnaldo Jabour, 6 de abril de 2006. Jornal “O Estado de S. Paulo”.
Peregrino do Amor – Anjos de Resgate.
Quanto já me emocionei ao ouvir a tua voz
Quanto já chorei ao ler o que escreveu a nós
Pregou com tua vida e fez a igreja assim crescer
O mundo deu perseguições e Deus te deu consolações
O teu amor embriagou o mundo
Que fez a tantos jovens mergulharem mais fundo
Refrão:
És o Peregrino do Amor
Buscou os jovens com tanto ardor
Ninguem jamais andou por tantas terras
Nem levou a paz a tantas guerras
Tentaram até calar a tua voz
Em troca revelou o Céu a nós
Um Mendigo do meu Senhor
Por isso eu te sigo
Peregrino do Amor
Olhando tua agonia só posso imaginar
Que a própria Virgem Maria veio te buscar
E com os anjos te levou ao mais lindo lugar
E todos os Santos lá estavam a te esperar
Foi por ter buscado a tantos jovens
Em tua páscoa a juventude veio a ti
Refrão
Tão grande era a força do teu bem
Que até os maus vieram e te buscaram também
És o Peregrino do Amor
Buscou os jovens com tanto ardor
De tuas fraquezas não nos fez segredo
E deu a ordem pra não termos medo
A fé não está no corpo que se inclina
Mas está na alma do que crê
Eu creio que és o nosso intercessor
Por isso eu te sigo
Peregrino do Amor
Ainda no clima de sua agonia e na expectativa de sua sucessão, escrevi ao Jornal Revelação, um pouco de sua biografia e descrevi como seria o processo sucessório. Hoje, questionamos os rumos da sua canonização.
Ainda durante suas exéquias ouviam-se os gritos vindos em coro da multidão chorosa que o proclamava: “Santo Súbito”. O moroso e rigoroso processo de canonização (elevação de um humano a categoria de santo) foi abreviado um ano após sua morte por uma decisão do novo papa, numa espécie de reconhecimento da santidade de João Paulo II. Apesar de apoiar a mobilização pela canonização de Carol, acredito que isso será apenas uma formalização do que as pessoas em todo o mundo sentem.
Nós brasileiros temos as emoções latentes na pele, mas da mesma forma que elas vêm, se vão rapidamente. Por aqui é incomum ver quem ainda se sente da mesma forma que na época da morte do papa, mas na Europa e especialmente na Itália e na Polônia, os jovens católicos são gratos aos atos do “papa das virtudes”, lá, a pressão pela santificação de João Paulo II é grande.
Nunca a igreja havia visto tamanha dedicação e carisma, esforço e perseverança. Não renunciou, Não fraquejou e deu a ordem “não tenham medo”. E hoje, nessa triste lembrança, não me deixam de vir a mente dois textos que traduzem todas as visões lançadas sobre João Paulo II. Aproveito para compartilhá-las.
Eu não gostava do Papa João Paulo II
Escrevo enquanto vejo a morte do papa na TV. E me espanto com a imensa emoção mundial. Espanto-me também comigo mesmo: 'Como eu estou sozinho!' - pensei. Percebi que tinha de saber mais sobre mim, eu, sozinho, sem fé nenhuma, no meio deste oceano de pessoas rezando no Ocidente e Oriente. Meu pai, engenheiro e militar, me passou dois ensinamentos: ele era ateu e torcia pelo América Futebol Clube. Claro que segui seus passos. Fui América até os 12 anos, quando 'virei casaca' para o Flamengo (mas até hoje tenho saudade da camisa vermelha, garibaldina, do time de João Cabral e Lamartine Babo), e parei de acreditar em Deus. Sei que 'de mortuis nihil nisi bonum' ('não se fala mal de morto'), mas devo confessar que nunca gostei desse papa. Por quê? Não sei. É que sempre achei, nos meus traumas juvenis, que papa era uma coisa meio inútil, pois só dava opiniões genéricas sobre a insânia do mundo, condenando a 'maldade' e pedindo uma 'paz' impossível, no meio da sujeira política.
Quando João Paulo entrou, eu era jovem e implicava com tudo. Eu achava vigarice aquele negócio de fingir que ele falava todas as línguas. Que papo era esse do papa? Lendo frases escritas em partituras fonéticas... Quando ele começou a beijar o chão dos países visitados, impliquei mais ainda. Que demagogia! - reinando na corte do Vaticano e bancando o humilde...
Um dia, o papa foi alvejado no meio da Praça de São Pedro, por aquele maluco islâmico, prenúncio dos tempos atuais. Eu tenho a teoria de que aquele tiro, aquela bala terrorista despertou-o para a realidade do mundo. E o papa sentiu no corpo a desgraça política do tempo. Acho que a bala mudou o papa.
Mas, fiquei irritadíssimo quando ele, depois de curado, foi à prisão 'perdoar' o cara que quis matá-lo. Não gostei de sua 'infinita bondade' com um canalha boçal. Achei falso seu perdão que, na verdade, humilhava o terrorista babaca, como uma vingança doce. E fui por aí, observando esse papa sem muita atenção. É tão fácil desprezar alguém, ideologicamente...
Quando vi que ele era 'reacionário' em questões como camisinha, pílula e contra os arroubos da Igreja da Libertação, aí não pensei mais nele... Tive apenas uma admiração passageira por sua adesão ao Solidariedade do Walesa, mas, como bom 'materialista', desvalorizei o movimento polonês como 'idealista', com um Walesa meio 'pelego'. E o tempo passou. Depois da euforia inicial dos anos 90, vi que aquela esperança de entendimento político no mundo, capitaneado pelo Gorbachev, fracassaria. Entendi isso quando vi o papai Bush falando no Kremlin, humilhando o Gorba, considerando-se 'vitorioso', prenunciando as nuvens negras de hoje com seu filhinho no poder. Senti que o sonho de entendimento socialismo-capitalismo ia ser apenas o triunfo triste dos neoconservadores. O mundo foi piorando e o papa viajando, beijando pés, cantando com Roberto Carlos no Rio. Uma vez, ele declarou: 'A Igreja Católica não é uma democracia.' Fiquei horrorizado naquela época liberalizante e não liguei mais para o papa 'de direita'.
Depois, o papa ficou doente, há dez anos. E eu olhava cruelmente seus tremores, sua corcova crescente e, sem compaixão nenhuma, pensava que o pontífice não queria 'largar o osso' e ria, como um anti-Cristo. Até que, nos últimos dias, João Paulo II chegou à janela do Vaticano, tentou falar... e num esgar dolorido, trágico, foi fotografado em close, com a boca aberta, desesperado. Essa foto é um marco, um símbolo forte, quase como as torres caindo em NY. Parece um prenúncio do Juízo Final, um rosto do Apocalipse, a cara de nossa época. É aterrorizante ver o desespero do homem de Deus, do Infalível, do embaixador de Cristo. Naquele momento, Deus virou homem. E, subitamente, entendi alguma coisa maior que sempre me escapara: aquele rosto retorcido era o choro de uma criança, um rosto infantil em prantos! O papa tinha voltado ao seu nascimento e sua vida se fechava. Ali estava o menino pobre, ex-ator, exoperário, ali estavam as vítimas da guerra, os atacados pelo terror, ali estava sua imensa solidão igual à nossa.
Então, ele morreu. E ontem, vendo os milhões chorando pelo mundo, vendo a praça cheia, entendi de repente sua obra, sua imensa importância. Vendo a cobertura da Globo, montando sua vida inteira, seus milhões de quilômetros viajados, da África às favelas do Nordeste, entendi o papa.
Emocionado, senti minha intensíssima solidão de ateu. Eu estava fora daquelas multidões imensas, eu não tinha nem a velha ideologia esfacelada, nem uma religião para crer, eu era um filho abandonado do racionalismo francês, eu era um órfão de pai e mãe. Aí, quem tremeu fui eu, com olhos cheios d´água.
E vi que Karol Wojtyla, tachado superficialmente de 'conservador', tinha sido muito mais que isso. Ele tinha batido em dois cravos: satisfez a reacionaríssima Cúria Romana implacável e cortesã e, além disso, botou o pé no mundo, fazendo o que italiano nenhum faria: rezar missa para negões na África e no Nordeste, levando seu corpo vivo como símbolo de uma espiritualidade perdida. O conjunto de sua obra foi muito além de ser contra ou a favor da camisinha. Papa não é para ficar discutindo questões episódicas. É muito mais que isso. Visitou o Chile de Pinochet e o Iraque de Saddam e, ao contrário de ser uma 'adesão alienada', foi uma crítica muito mais alta, mostrando-se acima de sórdidas políticas seculares, levando consigo o Espírito, a idéia de Transcendência acima do mercantilismo e de ditaduras. E foi tão 'moderno' que usou a 'mídia' sim, muito bem, como Madonna ou Pelé. E nisso, criticou a Cúria por tabela, pois nenhum cardeal sairia do conforto dos palácios para beijar pé de mendigo na América Latina. João Paulo cumpriu seu destino de filósofo acima do mundo, que tanto precisa de grandeza e solidariedade.
Sou ateu, sozinho, condenado a não ter fé, mas vi que se há alguma coisa de que precisamos hoje é de uma nova ética, de um pensamento transcendental, de uma espiritualidade perdida. João Paulo na verdade deu um show de bola.
Arnaldo Jabour, 6 de abril de 2006. Jornal “O Estado de S. Paulo”.
Peregrino do Amor – Anjos de Resgate.
Quanto já me emocionei ao ouvir a tua voz
Quanto já chorei ao ler o que escreveu a nós
Pregou com tua vida e fez a igreja assim crescer
O mundo deu perseguições e Deus te deu consolações
O teu amor embriagou o mundo
Que fez a tantos jovens mergulharem mais fundo
Refrão:
És o Peregrino do Amor
Buscou os jovens com tanto ardor
Ninguem jamais andou por tantas terras
Nem levou a paz a tantas guerras
Tentaram até calar a tua voz
Em troca revelou o Céu a nós
Um Mendigo do meu Senhor
Por isso eu te sigo
Peregrino do Amor
Olhando tua agonia só posso imaginar
Que a própria Virgem Maria veio te buscar
E com os anjos te levou ao mais lindo lugar
E todos os Santos lá estavam a te esperar
Foi por ter buscado a tantos jovens
Em tua páscoa a juventude veio a ti
Refrão
Tão grande era a força do teu bem
Que até os maus vieram e te buscaram também
És o Peregrino do Amor
Buscou os jovens com tanto ardor
De tuas fraquezas não nos fez segredo
E deu a ordem pra não termos medo
A fé não está no corpo que se inclina
Mas está na alma do que crê
Eu creio que és o nosso intercessor
Por isso eu te sigo
Peregrino do Amor
domingo, 9 de março de 2008
Navalha na Carne
"[...] que várias vezes seguidas procederam à imersão da cabeça do interrogando, a boca aberta, num tambor de gasolina cheio d'água, conhecida essa modalidade como 'banho chinês'[...].
[...] que, inclusive, ameaçaram de tortura seus dois filhos; que torturaram seu marido também; que seu marido foi obrigado a assistir todas as torturas que fizeram consigo; que também sua irmã foi obrigada a assistir a suas torturas;[...].
[...] sofreu violências sexuais na presença e na ausência do marido;[...]
[...] a interroganda quer ainda declarar que durante a primeira fase do interrogatório foram colocadas baratas sobre seu corpo, e introduzida uma em seu ânus."
Depoimentos de vítimas da repressão militar, apud Brasil: nunca mais, p.39 a 48.
Postagem em apoio ao movimento que prega a abertura dos arquivos da Ditadura Militar instaurada após o GOLPE de 1964.
[...] que, inclusive, ameaçaram de tortura seus dois filhos; que torturaram seu marido também; que seu marido foi obrigado a assistir todas as torturas que fizeram consigo; que também sua irmã foi obrigada a assistir a suas torturas;[...].
[...] sofreu violências sexuais na presença e na ausência do marido;[...]
[...] a interroganda quer ainda declarar que durante a primeira fase do interrogatório foram colocadas baratas sobre seu corpo, e introduzida uma em seu ânus."
Depoimentos de vítimas da repressão militar, apud Brasil: nunca mais, p.39 a 48.
Postagem em apoio ao movimento que prega a abertura dos arquivos da Ditadura Militar instaurada após o GOLPE de 1964.
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