quarta-feira, 2 de abril de 2008

3 Anos sem João...

Passaram-se três anos desde a morte de João Paulo II, mas os reflexos de seu longo pontificado ainda estão latentes no coração dos jovens católicos de todo o mundo. “Eu vos procurei, vocês vieram a mim e eu vos abençôo”, com essa frase, uma das últimas inteligíveis ditas antes da morte, João Paulo II agradeceu a imensa multidão de jovens que lotou a praça de São Pedro.
Ainda no clima de sua agonia e na expectativa de sua sucessão, escrevi ao Jornal Revelação, um pouco de sua biografia e descrevi como seria o processo sucessório. Hoje, questionamos os rumos da sua canonização.
Ainda durante suas exéquias ouviam-se os gritos vindos em coro da multidão chorosa que o proclamava: “Santo Súbito”. O moroso e rigoroso processo de canonização (elevação de um humano a categoria de santo) foi abreviado um ano após sua morte por uma decisão do novo papa, numa espécie de reconhecimento da santidade de João Paulo II. Apesar de apoiar a mobilização pela canonização de Carol, acredito que isso será apenas uma formalização do que as pessoas em todo o mundo sentem.
Nós brasileiros temos as emoções latentes na pele, mas da mesma forma que elas vêm, se vão rapidamente. Por aqui é incomum ver quem ainda se sente da mesma forma que na época da morte do papa, mas na Europa e especialmente na Itália e na Polônia, os jovens católicos são gratos aos atos do “papa das virtudes”, lá, a pressão pela santificação de João Paulo II é grande.
Nunca a igreja havia visto tamanha dedicação e carisma, esforço e perseverança. Não renunciou, Não fraquejou e deu a ordem “não tenham medo”. E hoje, nessa triste lembrança, não me deixam de vir a mente dois textos que traduzem todas as visões lançadas sobre João Paulo II. Aproveito para compartilhá-las.

Eu não gostava do Papa João Paulo II

Escrevo enquanto vejo a morte do papa na TV. E me espanto com a imensa emoção mundial. Espanto-me também comigo mesmo: 'Como eu estou sozinho!' - pensei. Percebi que tinha de saber mais sobre mim, eu, sozinho, sem fé nenhuma, no meio deste oceano de pessoas rezando no Ocidente e Oriente. Meu pai, engenheiro e militar, me passou dois ensinamentos: ele era ateu e torcia pelo América Futebol Clube. Claro que segui seus passos. Fui América até os 12 anos, quando 'virei casaca' para o Flamengo (mas até hoje tenho saudade da camisa vermelha, garibaldina, do time de João Cabral e Lamartine Babo), e parei de acreditar em Deus. Sei que 'de mortuis nihil nisi bonum' ('não se fala mal de morto'), mas devo confessar que nunca gostei desse papa. Por quê? Não sei. É que sempre achei, nos meus traumas juvenis, que papa era uma coisa meio inútil, pois só dava opiniões genéricas sobre a insânia do mundo, condenando a 'maldade' e pedindo uma 'paz' impossível, no meio da sujeira política.
Quando João Paulo entrou, eu era jovem e implicava com tudo. Eu achava vigarice aquele negócio de fingir que ele falava todas as línguas. Que papo era esse do papa? Lendo frases escritas em partituras fonéticas... Quando ele começou a beijar o chão dos países visitados, impliquei mais ainda. Que demagogia! - reinando na corte do Vaticano e bancando o humilde...
Um dia, o papa foi alvejado no meio da Praça de São Pedro, por aquele maluco islâmico, prenúncio dos tempos atuais. Eu tenho a teoria de que aquele tiro, aquela bala terrorista despertou-o para a realidade do mundo. E o papa sentiu no corpo a desgraça política do tempo. Acho que a bala mudou o papa.
Mas, fiquei irritadíssimo quando ele, depois de curado, foi à prisão 'perdoar' o cara que quis matá-lo. Não gostei de sua 'infinita bondade' com um canalha boçal. Achei falso seu perdão que, na verdade, humilhava o terrorista babaca, como uma vingança doce. E fui por aí, observando esse papa sem muita atenção. É tão fácil desprezar alguém, ideologicamente...
Quando vi que ele era 'reacionário' em questões como camisinha, pílula e contra os arroubos da Igreja da Libertação, aí não pensei mais nele... Tive apenas uma admiração passageira por sua adesão ao Solidariedade do Walesa, mas, como bom 'materialista', desvalorizei o movimento polonês como 'idealista', com um Walesa meio 'pelego'. E o tempo passou. Depois da euforia inicial dos anos 90, vi que aquela esperança de entendimento político no mundo, capitaneado pelo Gorbachev, fracassaria. Entendi isso quando vi o papai Bush falando no Kremlin, humilhando o Gorba, considerando-se 'vitorioso', prenunciando as nuvens negras de hoje com seu filhinho no poder. Senti que o sonho de entendimento socialismo-capitalismo ia ser apenas o triunfo triste dos neoconservadores. O mundo foi piorando e o papa viajando, beijando pés, cantando com Roberto Carlos no Rio. Uma vez, ele declarou: 'A Igreja Católica não é uma democracia.' Fiquei horrorizado naquela época liberalizante e não liguei mais para o papa 'de direita'.
Depois, o papa ficou doente, há dez anos. E eu olhava cruelmente seus tremores, sua corcova crescente e, sem compaixão nenhuma, pensava que o pontífice não queria 'largar o osso' e ria, como um anti-Cristo. Até que, nos últimos dias, João Paulo II chegou à janela do Vaticano, tentou falar... e num esgar dolorido, trágico, foi fotografado em close, com a boca aberta, desesperado. Essa foto é um marco, um símbolo forte, quase como as torres caindo em NY. Parece um prenúncio do Juízo Final, um rosto do Apocalipse, a cara de nossa época. É aterrorizante ver o desespero do homem de Deus, do Infalível, do embaixador de Cristo. Naquele momento, Deus virou homem. E, subitamente, entendi alguma coisa maior que sempre me escapara: aquele rosto retorcido era o choro de uma criança, um rosto infantil em prantos! O papa tinha voltado ao seu nascimento e sua vida se fechava. Ali estava o menino pobre, ex-ator, exoperário, ali estavam as vítimas da guerra, os atacados pelo terror, ali estava sua imensa solidão igual à nossa.
Então, ele morreu. E ontem, vendo os milhões chorando pelo mundo, vendo a praça cheia, entendi de repente sua obra, sua imensa importância. Vendo a cobertura da Globo, montando sua vida inteira, seus milhões de quilômetros viajados, da África às favelas do Nordeste, entendi o papa.
Emocionado, senti minha intensíssima solidão de ateu. Eu estava fora daquelas multidões imensas, eu não tinha nem a velha ideologia esfacelada, nem uma religião para crer, eu era um filho abandonado do racionalismo francês, eu era um órfão de pai e mãe. Aí, quem tremeu fui eu, com olhos cheios d´água.
E vi que Karol Wojtyla, tachado superficialmente de 'conservador', tinha sido muito mais que isso. Ele tinha batido em dois cravos: satisfez a reacionaríssima Cúria Romana implacável e cortesã e, além disso, botou o pé no mundo, fazendo o que italiano nenhum faria: rezar missa para negões na África e no Nordeste, levando seu corpo vivo como símbolo de uma espiritualidade perdida. O conjunto de sua obra foi muito além de ser contra ou a favor da camisinha. Papa não é para ficar discutindo questões episódicas. É muito mais que isso. Visitou o Chile de Pinochet e o Iraque de Saddam e, ao contrário de ser uma 'adesão alienada', foi uma crítica muito mais alta, mostrando-se acima de sórdidas políticas seculares, levando consigo o Espírito, a idéia de Transcendência acima do mercantilismo e de ditaduras. E foi tão 'moderno' que usou a 'mídia' sim, muito bem, como Madonna ou Pelé. E nisso, criticou a Cúria por tabela, pois nenhum cardeal sairia do conforto dos palácios para beijar pé de mendigo na América Latina. João Paulo cumpriu seu destino de filósofo acima do mundo, que tanto precisa de grandeza e solidariedade.
Sou ateu, sozinho, condenado a não ter fé, mas vi que se há alguma coisa de que precisamos hoje é de uma nova ética, de um pensamento transcendental, de uma espiritualidade perdida. João Paulo na verdade deu um show de bola.
Arnaldo Jabour, 6 de abril de 2006. Jornal “O Estado de S. Paulo”.

Peregrino do Amor – Anjos de Resgate.

Quanto já me emocionei ao ouvir a tua voz
Quanto já chorei ao ler o que escreveu a nós
Pregou com tua vida e fez a igreja assim crescer
O mundo deu perseguições e Deus te deu consolações
O teu amor embriagou o mundo
Que fez a tantos jovens mergulharem mais fundo

Refrão:
És o Peregrino do Amor
Buscou os jovens com tanto ardor
Ninguem jamais andou por tantas terras
Nem levou a paz a tantas guerras
Tentaram até calar a tua voz
Em troca revelou o Céu a nós
Um Mendigo do meu Senhor
Por isso eu te sigo
Peregrino do Amor

Olhando tua agonia só posso imaginar
Que a própria Virgem Maria veio te buscar
E com os anjos te levou ao mais lindo lugar
E todos os Santos lá estavam a te esperar
Foi por ter buscado a tantos jovens
Em tua páscoa a juventude veio a ti

Refrão

Tão grande era a força do teu bem
Que até os maus vieram e te buscaram também

És o Peregrino do Amor
Buscou os jovens com tanto ardor
De tuas fraquezas não nos fez segredo
E deu a ordem pra não termos medo
A fé não está no corpo que se inclina
Mas está na alma do que crê
Eu creio que és o nosso intercessor
Por isso eu te sigo
Peregrino do Amor

domingo, 9 de março de 2008

Navalha na Carne

"[...] que várias vezes seguidas procederam à imersão da cabeça do interrogando, a boca aberta, num tambor de gasolina cheio d'água, conhecida essa modalidade como 'banho chinês'[...].
[...] que, inclusive, ameaçaram de tortura seus dois filhos; que torturaram seu marido também; que seu marido foi obrigado a assistir todas as torturas que fizeram consigo; que também sua irmã foi obrigada a assistir a suas torturas;[...].
[...] sofreu violências sexuais na presença e na ausência do marido;[...]
[...] a interroganda quer ainda declarar que durante a primeira fase do interrogatório foram colocadas baratas sobre seu corpo, e introduzida uma em seu ânus."
Depoimentos de vítimas da repressão militar, apud Brasil: nunca mais, p.39 a 48.

Postagem em apoio ao movimento que prega a abertura dos arquivos da Ditadura Militar instaurada após o GOLPE de 1964.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

A FARRA COM O MEU CARTÃO

Ainda ressabiados com as pizzas servidas pelo Congresso Nacional ano passado iniciamos 2008 com mais motivos para ficar alertas. De primeiro de janeiro até vinte cinco de maio todos nós brasileiros, honestos, trabalharemos apenas para pagar os impostos cobrados pelo governo federal e por nossos Estados e Municípios.
Uma briga de interesses, de olho nas eleições municipais deste ano, possibilitou à direita dar cabo da CPMF, criada anos antes pela própria direita, mas que se tornou o rei Midas do presidente Lula. No calor da derrota o presidente afirmou que nenhum pacote de impostos seria lançado para suprir as necessidades, mas horas depois, num afã de descaramento, aumentou os impostos bancários dizendo que a promessa era apenas por não lançar o pacote, o que não impediria um lançamento de vários ajustes.
Este ano é para americano nenhum botar defeito. Os dois últimos quadrimestres se limitam ao recesso das festas de natal, o que por si só, renderá em impostos a cifra de 14 bilhões de reais. Além dessa peculiaridade temporal, o pacote de impostos garantirá a reposição dos valores perdidos com a morte do rei Midas.
Mas o caminho poderia ter sido diferente, não haveria sido necessário sacrificar o bolso do contribuinte para equilibrar as contas, bastava um ajuste nas despesas. O governo prontamente atendeu a essa necessidade: cortou investimentos em infra-estrutura, saúde e educação.
Agora vem à tona, através do portal da transparência, os gastos produzidos pelo Cartão Corporativo do poder executivo. Materiais para construção, diárias em hotéis, churrascarias, free-shop, lojas de conveniência e outras anomalias orçamentárias. “Não podem ser pagas despesas pessoais de servidores ou de quem que seja, esta é uma característica da despesa pública, ela é impessoal”, afirmou a ministra Dilma Rousseff durante o anúncio do cancelamento dos cartões corporativos dos ministros de Estado. Na mesma oportunidade foi anunciado que a publicidade das despesas é perigosa, pois fere a segurança do presidente.
Não vejo perigo na publicidade dessas informações para a segurança de Lula, a menos que essa segurança seja alguma espécie de segurança política para o presidente ou para o partido que corre o risco de assistir a mais uma onda de escândalos envolvendo o dinheiro público. A bandeira da ética carregada pelo metalúrgico durante os anos 90 não existe mais. Ainda existem ações de auto-afirmação dessa característica, mas, infelizmente, não há nesse país um partido imaculado a ponto de ser o detentor deste estigma.
O Congresso Nacional tem a prerrogativa constitucional de Fiscalizar os gastos com o dinheiro público tendo o auxílio do Tribunal de Contas da União. Alguns parlamentares da oposição se apressam em recolher assinaturas para a abertura de mais uma CPI (zza). Os governistas se apressam em promover uma devassa nas contas dos governos anteriores (o cartão corporativo foi criado no governo FHC com o objetivo de aumentar o controle sobre gastos públicos) dizendo ir até Pedro Álvares Cabral.
Cabe aos brasileiros observar as estratégias colocadas em prática pelos partidos para enfrentar 2008. Do lado do governo, censurar informações para abafar a corrupção e ameaçar auditar 500 anos de história para apontar casos de corrupção adormecidos e do lado da oposição a revanche para tentar minar o sonho do terceiro mandato de Lula.
Se a Justiça não agir sobre a censura das contas e o Congresso levar em frente o projeto da CPI(zza), espero, pelo menos, que a casa da Mama não aceite o Cartão de Crédito do governo.

Luiz Maurício Pereira, estudante do 5º Período de Jornalismo da Universidade de Uberaba.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Uma imagem...

Há mais de uma semana o mundo assiste às cenas de barbárie promovidas pelos confrontos políticos e tribais que tomaram conta do Quênia após a reeleição duvidosa do presidente dias atrás. Confesso que até agora havia me interessado pouco pelos conflitos, tão “comuns” daquele lado do mundo.
Acabo de ver no site de notícias G1 uma imagem que me despertou interesse no tema. Estou estudando para concurso público e os programas de provas têm diversas questões legais uma delas é a “Declaração Universal dos Direitos Humanos”. Nela está escrito: “Art. 4º - Todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”. Já foram mortos no país mais de 300 pessoas e mais de 250.000 foram obrigadas a deixar suas casas e se mudarem para outros países.
A União Européia e os Estados Unidos apelam quase que diariamente para que os conflitos sejam resolvidos, mas efetivamente nada havia sido feito até o envio de representantes norte-americanos ao país. O governo do Quênia propôs à oposição que formasse um governo de coalisão, mas pelo estado político e social em que o Quênia se encontra nesse momento é impossível pacificar e normalizar o país sem o auxilio de ajuda internacional.
A própria oposição reconhece que pelos rumos tomados pela revolta apenas a intervenção da comunidade internacional seria capaz de trazer o país de volta a normalidade. E os órgãos que deveriam mediar este conflito não estão agindo de forma concreta, ficam apenas publicando manifestos, repúdios e declarações. A ONU, organização com poder de intervenção inclusive militar, não prepara uma “intifada” contra a guerra civil que se instala no país.
Infelizmente, não apenas o art. 4º da DUDH é negado, mas também o art. 28 – “toda pessoa tem direito a que reine no plano social e no plano internacional uma ordem capaz de tornar plenamente efetivos os direitos e as liberdades contidas na presente declaração”. Enquanto houver tolerância com governos intolerantes ninguém terá nenhuma garantia de que sua dignidade humana seja protegida pela Declaração Universal dos Direitos Humanos.
O link da foto: http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL248157-5602,00-
OPOSICAO+DO+QUENIA+RECUSA+OFERTA+
PARA+GOVERNO+DE+UNIAO.html